quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

SABORES GASTRONÓMICOS ENTRE OS WAMWANI DA ILHA DO IBO/CABO DELGADO. ACHEGAS PARA SEU ESTUDO.


Por Carlos Lopes Bento
- Antropólogo. Doutorado em Ciências Sociais. Sócio da SGL.      
Com esta comunicação, que foi elaborada com base em dados actuais, disponibilizados por vários informadores mwani, procuramos revelar alguns dos traços da cozinha mwani do quotidiano, festiva e do sagrado e conhecer, não só a complexa e heterogénea composição das suas saborosas comidas, como também os pratos considerados emblemáticos servidos em Cabo Delgado, particularmente, na ilha do Ibo. 

Situação geográfica das Ilhas de Querimba
Dispostas em forma de rosário, numa direcção norte-sul, as Ilhas de Querimba, que constituem o arquipélago do mesmo nome ou de Cabo Delgado formado por mais de três  dezenas de pequenas ilhas, situam-se no Oceano Indico Ocidental, a norte da ilha de Moçambique, entre as baías de Pemba e de Thunghi.

A ilha do Ibo, uma das cerca de 32 ilhas que integram o arquipélago, faz parte do território litorálico norte de Moçambique e é a 4ª ilha em superfície, mas com apenas 15 Km² (5x3).

Situada a sul da ilha de Matemo e a norte da ilha de Quirimba, possui um riquíssimo património humano e histórico resultante de intensos movimentos comerciais e religiosos encetados, desde o séc. VIII, por povos de múltipla proveniência (..., árabes, persas, suaílis, indianos, chineses, africanos (makhwa, makonde, yao, mafites, …), portugueses, franceses, wasakalava, ingleses,... ), constituindo um território privilegiado, fértil em contactos, choques e interpenetrações de culturas, um espaço de cooperação, competição e de conflito, um local propício a transformações biológicas e socioculturais.

Estes seculares cruzamentos, conjugados com as condições ecológicas específicas da ilha e com a diversidade crenças religiosas da população do Ibo, originaram um típico e riquíssimo património alimentar, resultante da interpenetração secular das cozinhas e culturas asiática (polinésia, indiana e persa), americana, africana e europeia. 

Dada a natureza dos seus solos corálicos e a irregularidade das chuvas, a agricultura na ilha do Ibo foi sempre praticada em pequena escala. Contudo, face ao crescente aumento da sua população, os seus moradores tiveram a necessidade de cultivar, em pequenas machambas, mandioca, feijão, milho, mapira, abóboras e pepinos, tanto nos seus quintais, vedados a laca-laca, onde plantaram papaeiras, goiabeiras, bananeiras, palmeiras, massaniqueiras e ateiras, como também nos terrenos baldios, fora da povoação.

Atendendo a que produção é insuficiente para satisfação da totalidade das necessidades alimentares, resolveram o problema indo fazer as suas machambas nas terras firmes próximas, onde colhem milho, arroz, mapira, feijão, mandioca, amendoim, gergelim, rícino, castanha de caju, mangas, … . 

A palmeira, o cafezeiro silvestre e a mangueira crescem, em número limitado, por toda a ilha.

Há criação de gado caprino, ovino e bovino, em pequena escala e de aves de capoeira.

Pela sua posição geográfica, a ilha do Ibo é rica em recursos aquáticos (peixes, crustáceos e moluscos). Para além dos pescadores, homens e mulheres, sempre que se deparam com dificuldades financeiras recorrem à pesca, utilizando armadilhas e pequenas redes ou panos junto à praia.

Esta disparidade entre as actividades agrícola e pesca influenciaria, decisivamente, a cozinha mwane, onde predomina a utilização dos produtos marinhos. 

A população pratica as religiões católica e islâmica, esta limitativa de alguns produtos alimentares.
Depois destes pertinentes considerandos, volto ao tema principal.

Do seu património alimentar, realçarei, nesta Comunicação (1), a comida mwane preparada e consumida no dia-a-dia, nas datas festivas e nos tempos sagrados e a sua heterogénea composição. 

A cozinha mwane utiliza na confeção dos seus variados manjares: arroz, mandioca, feijão,  milho, mapira, meixoeira, abóbora, gergelim, amendoim, coco, rícino, cana doce, batata doce, pepino, cebola, tomates, coentros, alhos, piripiri, castanha de caju, manga, papaia, anona, ata, romã, ananás, massanica, jambalão, banana, tamarindo, limão,  folhas verdes de hortaliça, mandioca, de batata doce, moringa e abóbora, excelentes para confecionar a matapa, peixe fresco ou seco e mariscos( camarão, carangueijo, lagosta, lulas, chocos, polvo, inhamata ... ), carne de bovino, caprino, ovino e de aves, ovos, açucar, sal, mel, vinagre, especiarias- açafrão, gengibre, cominhos, canela, cravinho e cardamungo. 

A alimentação, habitualmente, preparada pelas mulheres, embora em 1971 existissem 27 cozinheiros, tem como base o caril (nsuzi), de:

- carne ou peixe/polvo/carangueijo/inhamata, 
- coco (nsuzi uanazi),
- oleo de amendoim  (nsuzi uamafuta),
- abóbora (nsuzi uamanga),
- feijão (nsuzi uaunde), 
- caranguejo, camarão, macasa, inhamata, ... . 

e como acompanhamento (kuria):

- arroz de coco (kanazi), 
- bilinjé (arroz), 
- milho (kamafafaluela), 
- arroz refogado (kitoré),
- milho e feijão (makutshuko), 
- lumino de batata doce, banana, mandioca, abóbora
- mazizima (papa de mapira) 
- quitoré (arroz refogado)  
- matapa de folhas.

Para além dos temperos orientais que adquire, utiliza muitos produtos da terra: sal, priripiri, manga verde, de que faz vinagre, tamarindo (verde e maduro), limão, cebola, alho, tomate, fruto do embondeiro, ... .

Também se prepara e consome vários tipos de achar (conservas): limão, cebola, tamarindo, manga, que são conservados em sal, piripiri e vinagre. 

Bolos: nkate, de f.trigo (uabolo), f. milho (uariba), f. mandioca (pinaga), f.arroz (pneu), f.trigo (uumacajojo), f.arroz (vitumbula), f. mapira (viliosso), biscoito, igual ao anterior mas com forma biscoito de Portugal, f.arroz (uakumimina), uapão de ló, uasonho, 

Doces: abóbora, batata doce, meixoeira cozidio, coco (uanazi), amendoim pilado (uaintessa), castanha caju pilada (uacorosso), gergelim pilado (uaifuta), massanica (iaunazi), pera, papaia, banana, caju, manga, ngodó (bolo de farinha de arroz, coco e açucar que é servido na festa das raparigas culávia mwari) , uaunde, dinuto, virassassa, 

Os pratos de carne de cabrito, galinha, pato ovino ou bovino são apenas consumidos em datas festivas.

Como bebidas utlilizam água simples, chá, café, leite, limonada, laranjada. Para algumas cerimónias utilizam a água das chuvas e a água de coco.
Do seu trem de cozinha constam: frigideiras, panelas de barro- com boca larga para o  caril (kikalando), com boca pequena para arroz (kiungo), e para água (mivulo), panelas de cobre, alumínio e ferro, caçarolas de barro, tachos de alumínio, frigideiras, pedras de moer, peneiras (kissero), coadores (msudjo), almofarizes e pilões de madeira, raladores (mbusi), concha de casca de coco (lupaua),trempes de ferro, ... .

Com exceção do mês do Ramadão, o mwane faz três refeições por dia, diferentes das do quotidiano, nas cerimônias especiais- ritos de passagem, festas religiososas e nalgumas cerimónias de despossessão de espíritos.

No dia a dia
São servidas três refeições diárias: pequeno almoço/matabicho, almoço e jantar.

Ao pequeno almoço
Das 6 às 8 horas a alimentação é diversificada. Habitualmente toma-se:

- Chá com ribas, pneus, sonhos ou vitumbulas
- Chá com pão, ou bolos,bolos, nkate de trigo, milho, mandioca ou arroz, riba, leite e pão, 
- Pão e peixe frito.
- Leite ou leite com pão
- Café
- Ovos, cozidos ou fritos
- Arroz ou feijão com caril de peixe
- Mandioca cozida com peixe frito

Ao meio da manhã podia comer-se batata doce ou qualquer doce.

Ao almoço
Das 12 às 14 horas, a refeição é pouco variável. Habitualmente come-se:

- Arroz ou mapira e mais raramente, feijão, com caril de peixe­- frito, cozido ou assado ou de âmbar, temperados com  achares/azedos de manga ou limão.
- Tocossado de peixe acompanhado de arroz de coco 
- Arroz com peixe frito.
- Cebolada de peixe

Por vezes, pelas 17 horas, podia tomar-se uma chávena de leite ou comer sobejos do almoço.

Ao jantar

Das 19 às 20 horas, a refeição é variável, constando de 

- Chá com nkate, bolo ou pão 
- Chá com nkate de magaga
- Leite e café 
- Chá com aletria
- Arroz com caril de peixe
- Arroz de mapira com caril de peixe
- Arroz cozido com peixe
- Ovos fritos ou cozidos

Ao almoço e jantar, sempre que possível, come-se não só tchima/matapa de verduras (de folhas de abóbora, mandioca e hortaliça), batata doce ou mandioca, cozidas ou assadas, como também fruta, seja papaia, banana, laranja, ananás, pera goiaba, pera abacate, anona, ata, manga, de produção própria ou comprada. Também os doces caseiros diversos, são, algumas vezes, também consumidos.

Cerimónias religiosas e outras

Nas cerimónias religiosas - nascimento do profeta Maomé, festa a S. Francisco Xavier, maulide e fateha-oração pelos mortos confecciona-se uma alimentação especial constituída por carne de bovino e caprino.

No cumprimento de promessas, a alimentação preparada, galinha ou pato com arroz de caril é oferecida a orfãos ou alunos da madrassa), 
- No início da construção de casas, embarcações, gamboas e  a falta de chuva, preparam refeições à base de carnes de bovino, cabrito, galinha, pato e de arroz, em que a mapira, como elemento purificador(mapézi), o coco e os bolos têm presença obrigatória.

Cerimônias familiares

- Akika, apresentação da criança ao 7º dia do nascimento. No dia aprazado, de manhã cedo, as mulheres (familiares, amigas e vizinhas) preparam, com esmero, no quintal da família anfitriã, os bolos rote e o caril de cabrito, que, mais tarde, serão servidos aos convidados que molham os bolos no mel e o caril no azedo (achar feito localmente com manga verde, limão, pepino, tamarindo...). De realçar que, também, aos dignatários políticos e religiosos, aos vizinhos e órfãos, por uma questão de testemunho e de prestígio social, são oferecidas pequenas porções de carne, crua ou cozida, de mel e bolos. Como bebidas são servidos chá, café ou qualquer refresco e nunca bebidas alcoólicas proibidas pelo Alcorão. 

- Kutolola, furar orelhas das raparigas para brincos (kutolola brinco) e base nariz para kipine (kutolola kipine) serve-se doce de gergelim e bolo de arroz (n´godó).

- Corte de cabelo de rapazes e raparigas a comida própria: caril de carne de vaca, de galinha ou pato, com arroz ou apenas bolos e biscoitos com chá ou leite.

- Kulavia - Saída das raparigas do enclausuramento porque vai casar ou demora em fazê-lo. Nesta ocasião fazem-se doces de n'godó e nkate de mapira ou mandioca.

- Limbaje. Confecionam-se doces da melhor qualidade feitos pela família da noiva com a importância enviada pelo pai do noivo, na carta do pedido de casamento, que depois são enviados com a resposta ao pedido feito.

- Arusse - Casamento. Para a almoço do dia do casamento, o pai da noiva compra: 2,5 de arroz, 1 bovino, 1 cabrito, 1,5 saco de farinha de trigo, 25 quilos de açúcar, cocos, batatas, temperos. As pessoas mais abastadas, por vezes, confeccionam pratos de chacuti, chamuças, bebinca, … .

Nos ritos de passagem

- Kumbi, circuncisão dos rapazes, no acampamento, alimentam-se de mel, arroz de cabrito, peixe assado, tudo sem caril nem sal; já em casa, tomam leite, chá e bolos.

- Riga, iniciação das raparigas, faz-se caril de galinha sem temperos, chá forte com café com leite, bolos e biscoitos.

Nas cerimônias ligadas aos cultos de possessão, nas chamadas danças do diabo, há comidas que variam consoante a origem do espírito incorporado na mulher, que não farão parte desta comunicação.

E para terminar a indicação dos pratos da cozinha mwane mais recomendados por amigos nossos Muadjas:

- tocossado de peixe com xima de mandioca ou milho branco, ou arroz de coco ou mapira com coco;
- lumino (de mandioca ou de batata-doce, banana macaco verde) de peixe fresco; 
- caril de coco de caranguejo/camarão/peixe acompanhado com arroz ou leite  de coco;
 - quitoré com safi frito, acompanhado de arroz de coco, de mapira, de meixoeira ou soloco;
- peixe frito com milho e feijão (macutchucu);
- arroz de coco ou de mapira com  caril de peixe e molho de coco;
- caril de cabrito com arroz amarelo
- caril de peixe com arroz de coco e matapa
- bolo de meixoeira cozido, rotis (apas), filhoses, nkate wa kumimina (bolo de arroz) e nkate wa magaga (bolo de mandioca seca;
- doces de abobora e batata-doce.

Uma análise mais aprofundada da cozinha mwane, dos seus ingredientes e objectos/utensílios utlizados na sua preparação alimentar mostrar-nos-á que:

- grande parte das plantas alimentares - cereais, legumes e árvores de fruto - e especiarias são originárias  da Asia, Oceania e da América;

- Muitos dos utensílios utilizados  chegaram a África através da difusão cultural, provenientes da Oceania e Asia- pilão, mós, raspador, … ;

- muitos dessas plantas e utensílios são signos comuns da língua suaíli  ou dela derivados  e cobrem uma vasta área de África do litoral e interior;

- muitas iguarias e seus temperos, bolaria, doces são vocábulos das línguas suaíli, macua e português.

A cultura alimentar, aqui descrita, longe de estar completa, mostra bem a diversidade e a riqueza da cozinha mwane- do dia-a-dia e festiva, bem diferente da preparada nas terras firmes do interior, muito mais simples, tanto nos produtos como na confecção. A diferenciação existente deve-se aos seculares contactos da comunidade mwane com gentes de outras culturas e civilizações: árabe, asiática, e europeia, portadoras de outros saberes e estilos de vida, muitos deles integrados, por úteis, na cultura local.

Terminada a minha Comunicação, resta-me agradecer a vossa estimada presença.

A todos um BEM HAJA.
- Carlos Lopes Bento
ANEXOS
ALGUMAS RECEITAS TÍPICAS DA GASTROMONIA MWANE

TOCOSSADO DE GALINHA

Ingredientes:

2 Frangos
1 ½ Tomate grande
2 Caldos Knorr de frango
1 ½ Cebola grande
1 Colherinha de massa de tomate
6 Azedos de manga previamente demolhados para tirar a acidez
½ Colherinha de sal
3 Piri-piri
1 ½ Colherinha de óleo

Execução:

Cortar o tomate e a cebola em pedaços pequenos, para que não fiquem nem grandes nem picados.
Num tacho, colocar 1 chávena de água e deitar um caldo Knorr, metade do tomate e da cebola já cortados, meia colherinha da massa de tomate e deixar ferver um pouco, cerca de 1 minuto.
Adicionar o frango, mais 1 chávena de água e a restante ½ colherinha de massa de tomate. Juntar 1 ½ colherinha de óleo.
Deixar ferver, pôr ½ colherinha de sal (para dar outro sabor, para além do caldo Knorr) e deixar ferver mais um pouco. Por fim, colocar o resto da cebola e tomate cortados e o azedo, sem mexer.
Deixar cozer estes últimos ingredientes sem mexer, deixando apenas acamar.
Ao deixar cozer muito bem, golpear 3 piri-piris e juntar para apurar.

Autoras:
- Compilada por Fernanda Carrilho e executada por Maria Judith Viegas Rodrigues Carrilho.

TOCOSSADO DE PEIXE

Ingredientes:

0.5 Kg de peixe grande / médio fresco (de preferência) às rodelas.
3 tomates grandes bem maduros sem pele e cortados aos pedaços.
1 cebola grande às rodelas.
1 dente de alho grande picadinho.
1 piripiri às rodelas (opcional).
Sal à gosto.
Sumo de 1 limão.
Água suficiente pra cobrir tudo.

Modo de fazer:

Coloca num tacho o peixe já limpo. Por cima, deita os restantes ingredientes exceptuando os 2 últimos.
Leve ao lume brando. Quando o líquido do peixe diminuir um pouco, deita a água e deixa reduzir um pouco sua quantidade. Por fim, adiciona o sumo do limão, mexendo o tacho e pouco depois desliga.
Acompanha-se com arroz de coco.
N.B. - Pode-se substituir por frango, é também saudável e delicioso.

Cedida por Margy

ACHAR DE SOLÃO

Ingredientes:

1 n’sudjo ou kitunga cheio de manga seca (azedo ou ambuche).
2 copos de vinagre.
6 pés de cravinho.
2 colherinhas de cominhos em pó.
2 colherinhas de coentros em pó.
½ colherinha de açafrão.
3 colherinhas de piripiri moído.
2 colherinhas de massa de tomate (para quem queira).
2 cebolas cortadas.
1 alho que chegue para uma colher cheia quando pisado
2 colherinhas de sal.
Óleo que chegue para a quantidade do azedo de manga (mais ou menos 6 conchas).
1 colherinha de açúcar.

Preparação:

De véspera, coloca-se a manga seca numa tigela e deitam-se os 2 copos de vinagre, deixando a demolhar até ao dia seguinte.
No dia seguinte, cortam-se as 2 cebolas e pisam-se muito bem os alhos com o sal. Colocam-se então a cebola dum lado, o alho doutro e todos os temperos juntos.

Execução:

Verte-se o óleo que chegue para todo o azedo numa panela, deixando até ferver. Após ter fervido, retira-se a panela do fogo. Aí, colocam-se todos os temperos e só depois o azedo. No final, deita-se 1 colherinha de açúcar e volta-se a colocar no fogo para misturar tudo e ficar pronto.

*Notas:

- N’sudjo ou kitunga, são kisseros pequenos, ou seja, peneiras feitas tradicionais Mwanes (do Ibo).
- Azedo ou ambuche, é manga seca em Kimwane, língua falada no Ibo.

Autoras:
- Receita compilada por Fernanda Carrilho e feita por sua Mãe, Maria Judith Viegas Rodrigues Carrilho.

ACHAR DE LIMÃO

Achar de limão é feito assim: 

Limãozinho maduro. piri-piri em pó ou fresco vermelho e sal.
Abre-se o limão em quatro com a casca e mete-se o sal e o piri-piri dentro do limão.
Vai-se arrumando num frasco de vidro ou barro... no final deita-se sumo de limão até cobrir o limão todo no frasco... Tapa-se o frasco e põe-se a ao sol durante um ou dois dias para curtir.
O suco de limão fica espesso e esta pronto para servir.
Atenção.... o achar não é caril, portanto serve-se só um  pouco...

- Cedida pela Nady.

LUMINO DE MANDIOCA

Ingredientes:

2 kg de mandioca. 
1/2 litro de leite de coco.
1 cebola.
Peixe, camarão ou frango.
Açafrão.
Manga seca, manga fresca(acida)ou tamarino ou suco de limão.
Sal e piri-piri verde. 
Modo de fazer:

Descascar a mandioca e cozer com um pouco de sal. Não deve ficar mole mas bem cozida.
Cortam-se as tiras não finas e arrumam-se numa panela.
Põe-se o leite de coco e o resto dos ingredientes todos (excepto o peixe ou frango) na panela, leva-se ao lume e vai-se mexendo lentamente ate começar a ferver. (fogo brando).
10 minutos depois da fervura, põem-se as postas de peixe já fritas e tostadas, ou os bocados de frango já cozidos ou o camarão fresco descascado.
Mais 10 minutos de cozedura e o lumino está pronto.
Pode-se acompanhar com um achar de limão.

- Cedida pela Nady.

MATAPA DE ABÓBORA

Cortas as folhas como se fosse pra fazer caldo verde, e pões numa panela com um pouco de água a cozer ( 10 minutos).
Enquanto isso levas leite de amendoim, cebola cortadinha, tomate fresco, sal e malagueta (se houver) e pões a cozer, mexendo sempre com uma colher de pau (se não tiveres colher de pau, tens que mexer com a mão senão, não anima...) rsrsrs brincadeira.
Quando o amendoim começar a engrossar despejas as folhas que já estão quase cozidas.
Deixas apurar mais uns 10 minutos e já esta  pronto.
Podes variar pondo camarão fresco, fica bom. também.

- Cedida por Nady.

FEIJOADA À MODA DO IBO

A base, é galinha e camarão e as quantidades ao gosto, possibilidades de cada um e nº de convivas.
De preferência o feijão e a galinha, devem ser do tipo cafreal, ou seja, pequenos e saborosos. 
No sul de Moçambique, este feijão chama-se "Timbauene".
O feijão coze-se primeiro, de preferência com um chouriço para dar o gosto, mas de carne de vaca ou carneiro!!!
Entretanto, prepara-se o refogado com os temperos: A cebola não deve ser muito picada, o alho só pisado e tudo isto se frita em muito pouco óleo, com tempero de pó de caril (mistura de açafrão indiano, colorau/coentro e cominho). 
Podem pôr-se outros temperos, ao gosto.
Depois do refogado bem cheiroso, deitar a galinha aos pedaços, mexe-se bem para fritar por fora sem deixar cozinhar e depois tapa-se o tacho e deixa-se cozinhar.
Se precisar de liquido, nunca água: ou cerveja ou vinho branco.
Quando a galinha estiver quase cozida, deitar o camarão descascado (eu deixo ficar as cabeças) e o feijão e deixa-se ferver por 5 minutos. Então, mistura-se isto tudo numa lata de leite de coco, deixa-se levantar fervura, mexendo sempre, mas não mais que 5 minutos e está pronto. 
É melhor quando feita de véspera.
Serve-se com arroz branco simples ou de coco, banana frita e ananás grelhado, querendo.

- Receita cedida, gentilmente por São Alves.


Quem é Carlos Lopes Bento 
DADOS PESSOAIS
- Carlos Lopes Bento, nasceu no ano de l933, em  Mouriscas, concelho de Abrantes e reside no Monte de Caparica, concelho de Almada..

FORMAÇÃO ACADÉMICA
- Doutorado em Ciências Sociais –Especialidade: História dos Factos Sociais, em 1994, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa, Licenciado em Ciências Antropológicas e Etnológicas pelo mesmo Instituto e Diplomado com o Curso Superior de Administração Ultramarina pelo antigo Instituto Superior de Estudos Ultramarinos.

ACTIVIDADE PROFISSIONAL E CIENTÍFICA
- Em Moçambique, por motivos profissionais, de 1961 até 1974, onde desempenhou funções de chefia e realizou trabalho de campo entre os povos makhwa de Murrupula e Mogincual, makonde de Mueda e mwani das Ilhas de Querimba e Porto Amélia (Pemba).
- Em 1994, defendeu, publicamente, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas, da Universidade Técnica de Lisboa, a tese de doutoramento “ As Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado. Situação Colonial, Resistências e Mudança- 1742-1822.
- Docente universitário, desde 1980, nas Universidades Livre e Internacional e no Instituto Superior Politécnico Internacional. Para além da orientação de vários trabalhos finais de licenciatura, leccionou Introdução às Ciências Sociais, Metodologia da Investigação, Antropologia Cultural e Comportamento Organizacional nas licenciaturas de Gestão Turística e Hoteleira e de Gestão Bancária e Seguradora, do Instituto Superior Politécnico Internacional (ISPI).
- Foi director do Centro de Investigação Aplicada em Gestão Hoteleira e Turística, tendo coordenado o Projecto de I&D sobre “Culinária tradicional num processo de mudança, na zona do Pinhal”.
- Presidiu aos Conselhos Pedagógico e Científico do ISPI.
- Membro da Sociedade de Geografia de Lisboa, onde exerceu cargos de direcção, nas secções de Etnografia, Antropologia e História. Actualmente faz parte da Direcção da mesma, e de vários centros de investigação ligados a África, onde tem apresentado dezenas de Comunicações.
- Investigador em vários projectos de natureza sócio-politica e de desenvolvimento em todo o Continente e Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, designadamente, "A Reconversão da Pesca Artesanal, entre os rios Tejo e Sado- Aspectos Humanos", comparticipado pela JNICT.
- Participação em muitas dezenas de eventos científicos ligados à temática africana e do turismo.

ÁREAS CIENTÍFICAS DE INTERESSE
Continua a interessar-se pela Antropologia Africana- governação colonial, ritos de passagem, alimentação e contactos de cultura- pela cultura alimentar tradicional, pela cultura organizacional e pelos problemas humanos relacionados com a mudança em comunidades rurais e piscatórias e em organizações empresariais, particularmente, turísticas e hoteleiras

COMUNICAÇÕES E PUBLICAÇÕES 
- 1980 - "Problemas Eco-Sociais e a Reconversão da Pesca Artesanal";
- 1982 - "O Trabalho de Campo na Antropologia e o Desenvolvimento";
- 1984 - "O Desenvolvimento das Pescas nas Costas do Algarve-Achegas para o Estudo do seu Passado";
- 1986 -  "As Potencialidades das Fontes Históricas na Pesquisa Antropológica";
- 1986 - "O Desenvolvimento das Pescas nas Costas do Algarve-Achegas para o Estudo do seu Passado. Breves Considerações Finais";
- 1987 - "A Pesca do rio Tejo. Os Avieiros: Que Padrões de Cultura? Que Factores de Mudança Sócio-Cultural? Que Futuro?";
- 1988 - "O Desenvolvimento das Pescas nas Costas do Algarve-Achegas para o Estudo do seu Passado.- Ambiente, Tecnologia e Qualidade de Vida";
- 1989 - "A Posição Geo-Política e Estratégica das Ilhas de Querimba. As Fortificações de Alguns dos seus Portos de Escala";
- 1990 - “La Femme Mwani e la Famille. Étude Quantitatif des Quelques Comportements des Femmas de l’île d’Ibo”;
- 1991 -  O 1º Pré-censo de Moçambique- A Relação Geral de População de 1798 das Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado";
- 1992 - "Uma Experiência de Desenvolvimento Comunitário na Ilha do Ibo/Moçambique entre 1969 e 1972";
- 1997 - "Os Prazos da Coroa nas Ilhas de Querimba e a sua Importância na Consolidação do Domínio Colonial Português";
- 1998 - "Ambiente, Cultura e Navegação nas Ilhas de Querimba. Embarcações, Marinheiros e Artes de Navegar";
- 1999 - "A Administração Colonial Portuguesa em Moçambique- Um Comando Militar em Mogincual, entre 1886 e 1921";
- 2000 - "Situação Colonial nas Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado- Senhorios, Mercadores e Escravos" (Resumo da tese de doutoramento);
- 2000 - “Contactos de Cultura Pós-Gâmica na Costa Oriental de África. O Estudo de um Caso Concreto”;
- 2001 - “A Ilha do Ibo: Gentes e Culturas-Ritos de passagem”;
- 2001 - “Ambiente, Cultura e Navegação nas Ilhas de Querimba- Embarcações, Marinheiros e Artes de Navegar”.
- 2003 - “A Cozinha Tradicional na Área do Pinhal e o Desenvolvimento Regional - O Maranho como Prato Emblemático num Processo de Mudança”;
- 2003 -“A possessão em Moçambique- O Curandeiro N´kanga entre os Wamwuani do Ibo (1969-74)”.
- 2004 - "A Antropologia da Alimentação em Portugal.- Um estudo concreto;
- 2005 - "A Sociedade de Geografia de Lisboa e o Turismo”
- 2007 -  “Um Projecto de Investigação sobre Cozinha Tradicional na Área do Pinhal e Vale do Tejo. (Breve Notícia.(Meados Do Século XX)”;
- 2008 - “O Novo Código de Posturas da Câmara Municipal de Cabo Delgado, de 1887. Uma Leitura Etnográfica;
- 2009 - “Tecnologias Tradicionais do Mundo Rural, no Ribatejo: O Ciclo do Azeite em Mouriscas (Abrantes), nos meados do Século XX”;
- 2010 - “Os Sakalava de Madagascar em Moçambique. Ataques às Ilhas de Querimba e Terras Firmes Adjacentes e Suas Implicações, entre 1800-1817”;
- 2011 - “As Condições de Trabalho em Moçambique, depois da Abolição da Escravatura. Direitos e Deveres dos Serviçais e Colonos e dos Patrões, em 1880 na Província de Moçambique”;
- 2011 -“A Mestiçagem Biocultural nas Ilhas de Querimba/Moçambique e suas Implicações na Administração Colonial Portuguesa. Achegas para o seu Estudo”;
- 2011 - “Notas sobre algumas das seculares manufaturas  das Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado;
- 2013 - “Palestra na Escola Secundária do Cartaxo sobre” Memórias do mundo rural no alto Ribatejo, nos meados do século xx. O ciclo dos cereais: o milho e o trigo, a sua transformação em farinha e o fabrico do pão caseiro, em fornos a lenha”
- 2014 - “Sabores gastronómicos entre os wamwani da ilha do Ibo/Cabo Delgado. Achegas para seu estudo”;
- 2015 -“ Moinhos e Azenhas de Mouriscas. Vivências e Memórias de um jovem moleiro -1944-1949”. A.I.D.I.A., Cadernos Culturais, nº 9, Agosto 2015. 2ª edição. 2017. pp. 57”;
- “Mouriscas. Preservar o seu Património Cultural para Defesa da sua Identidade”. A.I.D.I.A , Cadernos Culturais, nº 10, Novembro 2015, p. 133”;
- 2016 - “Mouriscas, do Passado ao Presente. Artes e Ofícios e seus Titulares(1860-1911) . A.I.D.I.A,  Cadernos Culturais, nº 12, Março 2016, pp 257”;
- 2017 - “Obreiros do Mundo Agrícola de Mouriscas, I e II. Proprietários, Agricultores e Jornaleiros e seus Titulares (1860 e 1911). A.I.D.I.A, Cadernos Culturais, nºs 20, Dezembro 2016, pp. 296 e 21, Março 2017, pp 120”;
- Tem publicados dezenas de artigos sobre as Ilhas de Querimba  em https://foreverpemba.blogspot.com.br/
FESTAS FELIZES 
Clique nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão para o blogue "ForEver PEMBA" em 14 de Dezembro de 2017. Permitida a reprodução e/ou distribuição dos artigos e imagens deste blogue só com a citação da origem/créditos.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A pedido de diversos gulosos... sabores de Moçambique


A pedido de diversos gulosos...

Sabia que:
- As bebidas tradicionais abundam em Moçambique e as diferentes regiões têm as suas bebidas predilectas.
Algumas das mais comuns são feitas usando-se o fruto do caju, do canhu, mandioca, manga, coco e cana-de-açúcar.
Normalmente os frutos são colhidos, lavados, deixam-se amadurecer completamente.
Depois abrem-se-lhes para retirar as sementes e as cascas e é tudo colocado num recipiente grande (como a bilha) para fermentar por um ou dois dias.
A mistura é depois coada, o liquido engarrafado, e está pronto para ser consumido.

- Maheu é um refresco servido normalmente em cerimónias ou como mata-bicho (pequeno almoço/café da manhã).
Junta-se um quilo de farinha de milho e três litros de água e deixa-se cozer por 20 minutos até fazer uma papa.
Deixa-se arrefecer num lugar escuro pelo menos durante 2 dias.
No terceiro dia acrescenta-se o açúcar a gosto e serve-se fresco.
O maheu é pesado, por isso não abuse para ter apetite para as outras delícias da festa.

-Piripiri: Para usar como tempero, o piripiri fresco e malaguetas devem ser cortados ao comprido e ao meio.
Remova os caules e sementes antes de cortá-los aos pedaços ou em fatias finas.
Lave sempre as mãos depois para evitar transmitir aos olhos os óleos do piripiri pois podem fazer mal.

- Você sabia?... que a mangueira começa a produzir fruta no sexto ano e depois produz mangas duas vezes por ano durante quarenta anos.

- ACHAR DE LIMÃO

Ingredientes:
1 kg de limão pequeno bem maduro
150 gr. de piripiri maduro e seco
2 colheres de sopa de sal

Preparação:
Lava-se a metade da quantidade de limão, corta-se em quatro partes sem deixar que seseparem.
Põem-se sal dentro do limão e mete-se num frasco com o piripiri.
Com a outra metade da quantidade de limão faz-se o sumo de limão e acrescenta-se no frasco contendo o limão cortado e piripiri.
Deixa-se ficar quatro dias em molho.
No quinto dia côa-se o piripiri (deixar escorrer bem o sumo) moem-se na “mbenga”, junta-se-lhe o sumo de limão e côa-se de novo para separar as sementes.
Junta-se o preparado (piripiri coado com limão) com o limão cortado ao meio e mete-se em frascos.
Depois de pronto deve-se expor ao sol durante alguns dias
O sal deve ser suficiente, pois assim o achar conserva-se durante mais tempo.

- CARIL DE CAMARÃO EM ANANÁS

Ingredientes:
750 gr de camarão fresco, cozido e sem as veias
Sumo de um limão
2 colheres de sopa de óleo
l cebola cortada
l colher de sopa de coentro cortado
2 tomates cortados
2 colheres de chá de pó de caril(curry)
1 chávena de caldo de peixe
2 colheres de sopa de manteiga
2 colheres de sopa de farinha de trigo
2 ananases pequenos

Preparação:
Numa panela refogue a cebola em óleo e adicione o tomate, coentro e o pó de caril.
Cozinhe durante cinco minutos.
Adicione o caldo e o camarão salpicado com sumo de limão e deixe ferver em lume brando durante quinze minutos.
Misture a manteiga e a farinha de trigo e adicione esta mistura ao camarão aos poucos para engrossar o molho até se tornar macio.
Deixe cozer por mais alguns minutos e retire do lume.
Corte o ananás ao meio ao comprido e tire algumas partes da polpa.
Recheie os espaços ocos com a mistura de camarão e decore com coentro cortado e a casca de um limão torcida.

- CHAMUÇAS INDIANAS:

Ingredientes:
Água – 1 chávena
Alho – 5 dentes
Caril – 2 colheres de sopa
Cebola pequena – 2
Coentros – 2 colheres de chá
Farinha – 2 chávenas
"Garam masala" – 1 colher de sopa
Gengibre em pó – 1 colher de sopa
Manteiga – 5 colheres de sopa
Menta – 1 colher de sopa
Óleo – q.b.
Sal – 1 colher de chá
Sumo de limão – 1 colher de sopa
Vaca picada – 250grs.

Preparação:
Junte a farinha, o sal, a manteiga e a água numa tigela.
Amasse bem e deixe repousar enquanto prepara o recheio.
Aqueça a manteiga numa frigideira, junte metade da cebola picada, o gengibre ralado e o alho picado.
Deixe alourar, juntando depois o caril, o sal, o vinagre e a carne de vaca muito bem picadinha. Mexa bem, e deixe cozer em lume brando durante 10 a 15 minutos.
Adicione um pouco de água, no caso de secar demais.
Junte a este preparado o garam masala, as folhas de menta picadas e os coentros picados, mexendo bem. Retire do lume e deixe arrefecer.
Faça pequenas bolas com a massa e estenda-as e corte-as em forma de quadrados com mais ou menos 10 cm de lado, numa superfície coberta com farinha.
Deite uma colher de sopa de recheio no centro de cada quadrado de massa, dobrando-a, depois, em forma de triângulo.
Dobre as pontas, para que a chamuça não se abra ao fritar.
Aqueça bem o óleo e deixe aloirar as chamuças.
Ao retirar do óleo passe-as por papel absorvente, para que não fiquem muito gordurosas.

Tente fazer e... Bom apetite!
- In "O Cozinheiro" por Marielle Rowan.

domingo, 28 de junho de 2015

SAUDADE AFRICANA - Manuel Coutinho Nogueira Borges

EM MEMÓRIA DE UM AMIGO QUE PARTIU HÁ 3 ANOS
Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Portugal. Faleceu em 27 de Junho de 2012. Extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória":
Onde está a África da minha saudade que conheci quando ainda não sabia que o futuro nunca é o que sonhamos?

África tão longe e tão longa que a recordação parece não ter contornos e o tempo passado permanece em cada dia que a mágoa nos aleija a alma. Acarto comigo um fardo de angústia que me isola no meio de muita gente, aquela solidão feita da repugnância do que se ouve e vê, da ingratidão que não se merece, da violência dos gestos e das palavras, da profanização sacralizada como se, na vida, só valesse o exponencial de todas as manhas.

É na invocação africana que se me diluem a podridão envolvente, a incapacidade da rotina, os olhares mal encarados, a indiferença das bocas fechadas.

Onde está a África dos meus clamores, das lágrimas escondidas nas sombras das noites de escuta?

África da surpresa por amigos esventrados, estendidos nas caixas dum Unimog ou de uma Berliet, e eu, com o seu fio de ouro nas mãos, sem articular uma frase, garganta presa pela afonia, estômago à beira do vómito, a fugir de ver o sangue e os rostos desfigurados, e os camuflados cheios do esterco da morte inglória, e as botas furadas pelos restos do chumbo, e o cérebro tomado por agulhas a picarem-me por todo o lado, por tudo que é corpo e consciência, e a olhar em meu redor sem uma luz na noite a ensinar-me o caminho, sem um som no fim da terra vermelha para me provocar o andar, sem (meu Deus!) uma esperança de que os mortos inocentes pudessem renascer para o meu convívio.

Onde está a África das cantinas no esconso da selva, das trovoadas e das chuvas apanhando-me nos descampados da savana, das queimadas fantasmagóricas nas noites despertas, perscrutando as curvas e os trilhos da traição, dos luares arrebatadores contemplados por entre os mosquiteiros já gastos pelo uso de muitos rostos, os uivos das hienas, atordoadas pelo cio e pela fome, arrepiando-me todo, acelerando o coração, alagando-me de suor, puxando a G-3, aconchegando o caqui, retesando os nervos com o dedo no gatilho?

Onde está a África das manhãs de maresia nas praias de todas as bandeiras azuis, sem ventos nem garrafões ou ossos de frango nas areias; praias tão quentes e tão finas que até parecia que um homem as pisava pela primeira vez, as suas águas tinham lábios de espuma que nos beijavam sempre em ternuras sem fim, corais como conchas vivas de um sonho irrepetível; palmares enormes como naves de catedrais góticas por onde o sol entrava, coado pelos vitrais da folhagem tão fresca, resplandecente e pura como a virgindade de uma criança?

Onde está a África das presunções fardadas, das madrinhas de guerra, das filmagens da Televisão com «um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de propriedades», dos dias de São Vapor com cubas libres e «quem me dera regressar no Pátria!», dos calendários de mulatas nuas repletos de cruzes nos dias já passados, da obrigação de atravessar rios em almadias à procura de esconderijos de armas em ilhas paradisíacas, dos Postos Administrativos onde os sipaios nos deitavam sorrisos pepsodentes, dos funerais com danças de despedida e dos bifes de antílope a enfartaram barrigas vazias de tanta ração de combate?

Onde está a África das noites estreladas num céu tão belo e tão esmagador que dava vontade de ter asas para voar para a lua redonda como uma bola de cristal; noites de ritmos endiabrados, sensuais e espasmódicos, que o sangue fervia nas veias e rejubilava nas têmporas?

Quando o dia clareava e o fogo redondo subia na terra, um feitiço nos ludibriava com a ilusão de paz na vastidão da selva.
- Porto, *M. Nogueira Borges - do livro "Lagar da Memória".
  • Outros textos de Manuel Coutinho Nogueira Borges neste blogue!
*Manuel Coutinho Nogueira Borges é escritor nascido no Douro - Peso da Régua - Portugal. Faleceu em 27 de Junho de 2012. Extraído com autorização do autor de sua obra "O Lagar da Memória". Também pode ler M. Nogueira Borges no blogue "Escritos do Douro". 

terça-feira, 2 de junho de 2015

POESIA E SAUDADE - GLÓRIA DE SANT'ANNA PARTIU HÁ SEIS ANOS

No aniversário de falecimento de GLÓRIA DE SANT'ANNA - Escrito há 6 anos no Bar da Tininha - ""Partiu esta madrugada (02/06/2009) nossa Querida Professora, Amiga e Poetisa, Glória de Sant'Anna. 

A notícia veio até mim por simples texto: 

"... É com profunda dor, que te venho anunciar o falecimento da nossa Mãe. 
Morreu às 4 horas da madrugada do dia de hoje..." 

Não é fácil falar ou comentar quando o coração fica amargurado com mais esta passagem da vida que envolve e atinge um ser humano de valor sentimental imensurável para muitos de nós que aprendemos a caminhar na vida amparados pela força e ensinamentos recebidos de suas delicadas mãos, sempre dadas às nossas, desde os tempos da infância. 

Só consigo dizer que jamais esquecerei seu olhar terno, suave, sua voz tranquila, meiga mas firme e de palavras inteligentes, doces, sempre doces, repletas de poesia e sabedoria... 

Jamais deixarei de a considerar minha Querida Professora, quase uma segunda Mãe... 

Jamais deixarei de a considerar a minha Querida e Eterna Poetisa do Mar Azul de Pemba... 

E é com lágrimas nos olhos, com imensa tristeza, com uma tremenda saudade sem fim, que, aqui longe, a revejo no meu imaginário no meu último abraço, no meu último adeus terreno, ciente que a reencontrarei em meus sonhos e na poesia de todos os entardeceres que aprendi a descobrir na beleza de seus versos e na generosidade emanada de seu coração de poetisa, professora e Mãe. 
- J. L. Gabão, 02 de Junho de 2009.
Homenagem à poetisa Glória de Sant’Anna
Jornal JOÃO SEMANA (1/6/2010)
TEXTO: Pinto Soares
""""... ... ... 
Jaime Ferraz Gabão, em homenagem justíssima, escreveu, para a sua rubrica “Postal da Régua”, um artigo sobre a figura e a obra da consagrada poetisa Glória de Sant’Anna – trabalho que veio a lume, nestas páginas, na edição de 23/2/1990.

Nele afirma o estimado colega (trabalhámos, durante anos, no mesmo Jornal) e prezado Amigo (de longa data), que o signatário conheceu, muito bem, em terras de África, mais concretamente em Moçambique, essa extraordinária mulher que era, no Índico, uma das figuras representativas do florescente meio literário: com nome feito e prestígio invejável, conquistado mercê de uma obra que continua a ressumar a qualidade de outrora.

Nunca ninguém pôs em dúvida as qualidades excepcionais, nem a cultura de tão destacada princesa, que se distinguia, sobretudo na poesia – uma poesia fresca, luminosa, com substância e mensagem, recriadora –, também, frequentemente, repertório das suas vivências e daquilo que, atenta, circunvagando o olhar, presenciava e retinha, emprestando-lhe a elegância do seu verbo, não descurando o pormenor nem, tão-pouco, o cromatismo.

Segui, de perto, a trajectória de Glória de Sant’Anna, não pude trazer os seus livros – com pesar – ,li as críticas, sempre favoráveis, que lhe eram tecidas, a colaboração que oferecia a publicações diversas, e, mantive, em Nampula, um afável relacionamento com o seu marido, Andrade Paes, arquitecto, piloto de aviões, sabedor e corajoso, amigo de Carvalho Durão, do Catoja & Saldanha, firma sita na rua fronteira à Delegação do “Diário de Moçambique”, que eu chefiava, em instalações alugadas por Manuel Justino Sargento, “O Napoleão de Macuana”, segundo o juiz Paiva.

Glória de Sant’Anna deslocava-se com frequência de Porto Amélia a Nampula, sendo natural que, volvidos anos de tanto sofrimento para quem amava África e em particular aos habitantes de Pemba tanto se dedicou sem restrições de alma e coração, haja esquecido o cabouqueiro que um dia, afrontando o poder, se apresentou a sufrágio sem outros apoios do que aqueles que nunca lhe faltaram da parte do povo simples, mais tarde envenenado na sua candura e vítima de credulidade congénita, a macerá-lo numa guerra desumana e cruel, cujo termo ainda não se vislumbra.

Agradece, Glória de Sant’Anna, a divulgação, nestas páginas, da sua personalidade e da sua obra, graças ao dedicado empenho de Jaime Ferraz Gabão. Sentindo-nos honrados, auguramos que ela persista, enriquecendo as letras nacionais com o seu talento e forma especialíssima de versejar.

– “Não me recordo do seu nome. Muitos anos passaram…”

De Matosinhos para Válega, com ternura, “aquele abraço, a disponibilidade do JM e do seu Director – para Glória de Sant’Anna, um nome grande, respeitado, com lugar na literatura de Moçambique, nas antologias, no coração das suas gentes, na memória dos seus intelectuais.” """"

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quarta-feira, 29 de abril de 2015

José de Castro Cabral (Nikére) faleceu em 29 de Abril de 1969 em Lisboa com 72 anos

De origem fidalga, nasceu em 2 de Janeiro de 1897 (há 118 anos) na Freguesia de Paulistas em Lisboa José de Castro Cabral, mais conhecido na antiga Porto Amélia e todo o Cabo Delgado por Administrador José de Castro ou "Nikére".
(Em sua casa no palmar da praia da Inos)

Filho de José Augusto Coelho Leite Pereira de Castro e Maria Luisa de Castro Cabral Soares de Albergaria faleceu em 29 de Abril de 1969 também em Lisboa, com 72 anos.
Clique nas imagens para ampliar. Edição de J. L. Gabão (que teve o privilégio de o conhecer e com ele conviver pessoalmente na então Porto Amélia entre 1957/59) para o blogue "ForEver PEMBA". Fotos dos arquivos de Jaime Ferraz Rodrigues Gabão em Portugal. Faleceu em 29 de Abril de 1969Atualização em Janeiro, Abril, Agosto de 2013 e Abril de 2014.